Sobrevida

Uma vez, eu coloquei no papel
Aquilo que já perdi em vida
E me toquei que a vida
Fala mais sobre o que se foi
Do que o que ainda se é

Quando a cabeceira da cama parece grande demais
E seu corpo clama pela sutileza do pequeno
O mais apropriado a ser fazer é simplesmente
Deixar que as águas escorram de dentro para fora
Como gotas gélidas de uma noite de verão
Como ondas esfumaçadas que cortam a superfície

Renuncio a ter um significado mais uma vez
Condeno os meandros assimétricos do ciclo lunar
Rasgo o espectro que me dilacerou há pouco
Clamo por piedade em busca da miudeza
E percebo o movimento da brisa introspectiva
Navegar pela embarcação do que já fomos

A cama
O corpo que desanda
As gotas que escorrem
A lua que me afaga
A piedade no adeus

Tudo isso eu senti quando tive que encarar
O lado opaco e grotesco que habita em mim”

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