Eu sei que todo mundo escreve um pouco
Sei que parece mais hobby do que trampo
Mas por favor
Me deixa ser poeta?
Eu sei que tem poesia guardada pra todo canto
Transbordando sentimentos que não interessam nem aos ratos
Mas por favor
Me deixa ser poeta?
Eu sei que não dá muito, num tem grana, num dão valor
Que às vezes num se ganha nem afeto
Mas por favor
Me deixa ser poeta?
Eu sei que tem outras coisas, profissões, áreas gigantes
maior que esse cheio de gente de meio metro
Mas por favor
Me deixa ser poeta?
Eu juro que eu tentei desvio! Juro que tento!
Mas meu corpo é mais forte e forte é seu grito gemendo
“Por favor
Me deixa ser poeta?”
Sei que tem coisas que parecem mais importantes
Sei que poderia tentar ajudar noutras vertentes
Mas por favor
Me deixa ser poeta?
Me deixa soltar essas amarras que gritam que eu “tenho que” tanta coisa que são outras
Me deixa amarrar essas cordas em laço na minha âncora cardíaca
Me deixa sair navegando nesse mar de palavras soltas
Me deixa por favor
Me deixa ser poeta?
Me deixa escrever dias e dias sobre os dias e sobre o vento
Me deixa amar como boba só pra escrever sobre acalento
Me deixa escrever a terra e torcer pro cerrado quebrar o cimento
Me deixa me frustrar e seguir sorrindo poetizando toda contradição que eu encontro
Me deixa me livrar da culpa de ser palavra em turbilhão e de ser palavra toda
Deixa por favor
Me deixa ser poeta?
Eu sei que palavra não se come em prato
Sei que palavra não cura que nem planta
Sei que palavra nem sempre reflete fato
Sei que palavra é pouca, a dor é muita e que palavra poética aqui tem pouco espaço
Mas é tão meu, é tão sincero o que faço
Que eu peço: Por favor
Me deixa ser poeta?
Sai quase preso o peso da garganta
Sei que já sou e quero ser, mas é que nem sempre permito
Sei que é o que faço com mais amor
Mas amor nem sempre parece ter caminho aberto nesse espaço-tempo
Então me deixa abrir essa porta
Me deixa livre pra me ser como me sinto e com me parece mais certo
Me deixa deixar essa porta aberta
Me deixa por favor
Me deixa ser poeta?!