Domingos

em todos os domingos, é em ti que penso.
quando o arrebol, em antigas auroras,
atinge o parapeito de escuras rosas, imenso.
quando a angústia e a besta que me devora,
são maiores que as estrelas no céu denso.
quando os prédios, esqueletos de concreto,
começam a ruir em um silêncio abjeto,
e mesmo os ratos, que roubam meus segredos,
encontram o caminho de volta ao ninho, nas sombras e arvoredos.

e quando penso, quero saber:
nas pinceladas que ainda estão a escorrer,
entre as traças que me devoram o poema,
entre o lençol manchado que se queima
e no sal úmido que corre o semblante,
é a mim que vês ou a carcaça de um amante?

as flores tardias, secas ao pé do leito,
são agora restos de um dezembro
incontavelmente refeito.
no estômago de um lobo,
habita a velha maldição
e no eco do teu choro,
uma culpa púrpura, amarga imensidão
pois as espadas perfurando nove vezes o coelho
querem mais que um sonho em um espelho.
e o perdão comprometido pela ferida necrosada,
faz crescer no coração presa suja, mil vezes afiada.

em todos os domingos, é em ti que penso,
quando meu caminhar, vermelho,
encharcado e extenso
cede enfim à exaustão, destinado a errar.
quando o que busco, nunca é encontrado,
assim como o meu lar.
quando penso ouvir os cisnes desaparecidos,
contudo, ouço apenas os gritos dos meus filhos,
na tumba, esquecidos.
quando olho para o mármore
e não encontro teu nome,
quando finalmente percebo
que o que me sangra é a tua fome.

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